O Brasil que Entrava na Minha Sala

Eu cresci com a televiso ligada na sala e o corao aberto para o que ela mostrava. No era s entretenimento, era espelho, era escola, era companhia.

Vi Glria Maria, negra, elegante, firme, abrir as noites de domingo no Fantstico, e ali comecei a entender que lugar de mulher preta era onde ela quisesse. Vi Os Trapalhes, um grupo que reunia um nordestino, um negro, um gal e um baixinho, fazer piadas que hoje seriam canceladas, mas que, na poca, faziam rir e pensar, tudo ao mesmo tempo.

Vi Chico Anysio multiplicar-se em dezenas de personagens: negros, brancos, gays, pais de santo, pobres, polticos, doidos, todos com voz, todos com alma. Vi Rogria entrar nos lares brasileiros com a naturalidade de quem j era parte da famlia. Vi Jorge Lafond danar como Vera Vero e ser a estrela onde estivesse. Vi Roberta Close parar o pas com sua beleza, uma transexual estampando capas de revista masculina, sem polmica, sem escndalo.

Vi Ney Matogrosso cantar com a alma exposta, sem se explicar. Vi Cazuza e Renato Russo fazerem poesia com dor e desejo. Vi Maria Bethnia e Marina Lima encantarem sem pedir licena. Vi Clodovil, cheio de classe e opinio, dizer o que pensava com elegncia ,e ser eleito pelo povo. A sexualidade dessas pessoas? Nunca foi maior que o brilho delas.

E Pel... bom, Pel era rei. Negro, brasileiro, imortal.

Tambm vi Nelson Gonalves, gago e ex-garom, cantar o amor como poucos. E Nelson Ned, ano, ter voz e presena maiores que a prpria estatura. Vi Fausto e J Soares, gordos, debochados, inteligentes, conquistarem o topo da audincia com carisma e sarcasmo.

Tudo isso passava na TV aberta. Tudo isso formava o Brasil que eu aprendi a amar: imperfeito, sim, mas plural, espontneo, de peito aberto.

Hoje, parece que esse Brasil foi trocado por um outro, com medo de falar, de rir, de errar. Um pas onde as palavras andam sob viglia, e onde qualquer frase fora do script vira sentena.

No defendo o desrespeito, mas desconfio do silncio. Porque onde no se pode mais brincar, talvez tambm no se possa mais pensar.

Sinto falta da leveza. Sinto falta da liberdade, aquela que no precisava de manual para existir. No quero voltar no tempo, mas queria reencontrar aquele Brasil que cabia inteiro dentro da minha sala e fazia a gente rir at da prpria dor.

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